"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".

Costumo dizer que através da porta do escritório pessoas trazem toda a sorte de problemas para que eu ajude a resolver.

Amo o que faço, mas das inúmeras percepções ao longo desses dez anos advogando precisava sentir até onde o ser humano ainda confia no outro, de medir se é que é possível, do quanto as pessoas estão dispostas a ajudar o outro sem receber qualquer tipo de vantagem ou algo em troca.

Outro velho defeito que temos é do quanto colocamos expectativas sobre quem está próximo de nós e basta uma vírgula "não correspondida" para produzir nossos próprios moinhos de vento. Lembro que conversei muitas vezes sobre isso com nossa querida amiga Viviane Zanchin Larsen.

Mas afinal de contas qual seria a expectativa depositada em mim, um completo estranho, que de repente aparecesse na porta de alguém que nunca me viu antes, pedindo para passar uma noite por ali?

Isso me inquietava ao mesmo tempo que me instigava.

Assim nasceu a Expedição Caminhos!

Saí bem cedo de Cambará do Sul em direção à Curitiba, iniciando a descida pela Rota do Sol que lembra muito a nossa exuberante BR 277, ligando a BR 101 que me acompanharia até próximo de casa, margeando o litoral gaúcho e catarinense, perfazendo 699 km nesse último dia de viagem.

Quando desliguei a moto já na garagem, fui conferir a quilometragem total da trip, mostrando um número que dificilmente esquecerei.

Afinal de contas precisei de 3.195 km não apenas para enxergar, mas sentir que existem pessoas muito boas espalhadas por esse mundo dispostas a ajudar o próximo, especialmente quando esse "próximo" vem de muito longe e começa um contato falando primeiro o seu nome.

Felizmente, como eu sonhava, tive a honra em ser aceito e comer do mesmo pão, não importando como ele se apresentava porque a certeza de que era o melhor estava lá na medida em que era o mesmo alimento servido à todos naquele lar.

Meus amigos, eu era mais um de cada família em uma noite que fui abençoado por estar ali, sem a sombra de expectativa rondando em nenhum dos lados.

Falávamos entre si sem pudores como se conhecêssemos há muito tempo.

Presenciei o respeito e carinho entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs e principalmente entre anfitriões e um total estranho.

Em todas, todas as vezes eu não tive nada para oferecer, tive o cuidado para não interferir na imersão que confesso amigos, desejava com todas as forças experimentar e, graças à Deus, deu certo.

Nunca imaginei que uma viagem assim, totalmente diferente de todas as viagens que fiz até hoje pudesse ter uma carga de emoção tão forte.

Enquanto pilotava, gritei de alegria muitas vezes, outras tantas chorei de emoção e em outras, chorei agradecido à Deus por poder vivenciar tudo aquilo.

Sinceramente não sei se terei outra viagem assim, mas preciso dizer que não preciso de outra porque tudo o que precisava saber, descobrir e redescobrir, conquistei nessa expedição e ficará viva na memória e guardada no meu coração enquanto eu viver!

Não posso terminar sem antes agradecer à Niva, ao Raulzinho e a Ana Letícia por permitir que eu realizasse mais esse sonho e me dando toda a tranquilidade que eu precisava para estar encima de uma motocicleta rodando por três estados nesse período.

Obrigado ao Christian Rudnick pela criação do logo e edição do vídeo que traduz muito bem o que foram esses dias.

Oportuno dizer, pois certamente algum frustrado em seu sofá confortável poderá dizer que é puro exibicionismo contar em detalhes uma viagem de motocicleta como fiz.

Eu faço por dois motivos.

Para que meus netos vejam como o vovô era aventureiro e talvez a mais importante que é fazer você viajar na minha viagem para que saiba que és também capaz de fazer coisas tão ou mais bacanas que a que fiz e como resultado, sentir-se mais vivo do que nunca!

Aprendi a viajar lendo muito material e relatos de outros viajantes.

Finalmente, gostaria de lembrar a frase de um amigo muito querido.

"Viagem é um patrimônio que ninguém tira de você, que ninguém te rouba. É para sempre!".

Então, se for possível oferecer essa viagem a alguém, o faço para um cara que ninguém me vê abraçado com beijo na boca como dizia um chefe meu, mas que sempre esteve comigo nos momentos felizes e naqueles momentos mais difíceis também.

Claro que tenho outros poucos, mas verdadeiros amigos, mas esse se destaca no contexto por ser um motociclista apaixonado que hoje entende mais de viagens à Disney porque é pai de uma princesa.

Mas não esqueço dos planejamentos cirúrgicos de passeios e viagens, como foi o inesquecível planejamento de meses para a Serra do Rio do Rastro.

Portanto, Rodrigo Karam, essa viagem eu ofereço à você meu irmão. Ainda quero fazer outras viagens contigo.

E obrigado também à você por me acompanhar na garupa da minha moto pelo Facebook e fórum xt660.net mandando boas energias e prometo responder todas as mensagens que ainda não respondi.

Já sei qual será minha próxima aventura e nada tem a ver com motocicletas ou corridas, rs, até porque, o importante é viver!

Expedição Caminhos.

"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido..."
Fernando Pessoa